Devaneios/daydreams

Todo mês, a lua

Certo momento fiquei farto de ver vídeo sobre jogos enquanto jogo uma demonstração de um jogo qualquer. E vim pra varanda. Vim olhar a lua, é época da lua pós-cheia. Acabo de pesquisar que é minguante gibosa. São noites de lua assim que me fazem pensar em quantas noites já se foram. Cada noite, a lua vai nascer mais tarde, ao ponto de não ser mais visível até a hora de ir deitar ou mesmo sumir do céu quando lua nova. Penso nas juventudes de outras pessoas. De Vivi, que era cunhada de uma funcionária da loja da minha mãe. A gente se aproximou por gostarmos de "divas pop" e a adolescência dela me fascinava.

Tenho algo com adolescências, mas não vanglorio muito a minha.

Noites assim me fazem lembrar que um dia é qualquer dia. E um dia esse dia vai ser memorável tanto quanto os outros.

Eu ainda vivo sem muitas preocupações. Apesar do medo de que algo eventualmente aconteça, meus pais estão vivos.

Hoje meu companheiro conversou comigo sobre casamento. Meio que já somos casados: moramos juntos há 4 anos e ele me compreende e quer o meu bem, assim como eu quero o bem dele. Eu o encontrei em um aplicativo de namoro, mas ainda assim acho que foi um encontro fortuito (um "chance meeting" foi a expressão que me veio primeiro), inesperado. Foi inesperado gostar tanto de alguém, sentir algo que nunca senti. Sentir verdade e confiança, e medo de se entregar. Existem coisas que escondemos pra não machucar, e eu sei disso. Existem algumas coisas no nosso relacionamento que são assim, e que sabemos existir, mas tentamos não dar muita importância; eu tenho tentado.

Tenho tentado crescer um pouco, fazer coisas com outras pessoas. Eu dizia que não queria que esse tivesse sido meu primeiro relacionamento porque preferia que fosse o último. E ainda me sinto assim, acho que é algo bom.

Comecei escrevendo sobre essa sensação de que a lua dá cadência ao tempo. Durante a pandemia de 2020, em que eu voltei à casa dos meus pais e, talvez, ao sonho reprimido de voltar a ser adolescente, a lua reaparecia na janela alta do meu quarto, entrecortando o fluxo de dias que viraram semanas e meses.

Depois que vim pra minha nova vida na capital, voltando pra uma vida "sozinho" com meu namorado, a lua já não era esse ser que cortava o véu do tempo; passei meses sem vê-la.

Talvez por isso meu esposo perguntou se faziam 3 anos que estamos juntos: não tem como ter um senso nato de calendário. Às vezes, penso nos álbuns que foram minhas escutas diárias ao longo desses anos. Acho que o primeiro álbum que escutamos juntos por meses incansáveis foi o "Motomami", em 2022. Esse ano ele me deu esse e o CD do "Lux".

E assim como outros textos, não vou chegar em canto nenhum. Hoje quero um dia após o outro, com tempo de descanso.

Coincidentemente, começou a chuviscar logo quando terminei de escrever isso aqui, como se o céu me expulsasse da varanda.