Devaneios/daydreams

Eu seria uma criança de Roblox

Se eu fosse criança, provavelmente protestaria contra o Felca, mesmo sem entender nada.



31 de janeiro, acordo antes das 5 da manhã com Preta agoniada. Vou ao banheiro, ela me segue. Volto pra cama, ela puxa o travesseiro do lado da cômoda e deita ao meu lado, talvez pedindo afago. Escuto o barulho da barriga dela; isso me deixa inquieto, acho que a bichinha quer fazer suas necessidades. Desço, sem fazer barulho pra não acordar meu companheiro e Lau, a idosa que já não escuta bem.
Volto, tiro a roupa e deito. Desisto de dormir, visto-me e vou pra varanda; levo o livro novo do Vitor Martins, mas não leio. Faço compressa morna no olho direito, com um resquício de terçol de mais de uma semana em tratamento. “Se essa porra vira cisto de novo… é fogo”, penso.
Não peguei no celular ainda, como é meu costume evitar no dia a dia, mesmo com uma parte da minha mente sempre nele: pensando em avisar aos colegas de carona se estou no horário ou não, em comunicar à minha amiga que estou atrasado (como praticamente todo dia)…

06h33, Ele sai do quarto com a Preta, vamos passear e comprar pão. É nossa rotina do fim de semana. Seguro Lau no meu colo enquanto escrevo isso, senão ela faz xixi em casa mesmo. Se eu lembrar, concluo o que me fez pensar em escrever isso aqui: os espaços virtuais síncronos (caramba como o termo parece diferente do assunto que eu estava escrevendo aqui acima).

11h30. Volto à escrita tentando retomar o motivo de ter começado a escrever. Sentei na rede pela manhã e lembrei de como às vezes, quando criança, acordava para “tomar café” no Habbo. Eu joguei esse jogo por muito tempo, e tive muitas e muitas conversas. Do mesmo jeito que as pessoas tinham no MSN, no Bate-papo Uol, etc. Conversas síncronas, ao vivo, de atenção compartilhada, de entrar no mundo virtual; escolher entrar.
No mundo hoje permeado em seu todo pelo virtual, assíncrono é a regra, pois estamos todos obrigados a sincronizar de minuto a minuto. E o síncrono é incomum, às vezes de instante. Não é mais comum “adentrar” o computador.

Às vezes me pergunto como teria sido se tivesse crescido sem esses mundos virtuais nos quais fui presente; anseio por saudosismo de um passado impossível, pensando que teria feito mil extracurriculares, aprendido a tocar instrumentos, outros idiomas, a andar de bicicleta, feito mais amigos.
Mas sei que era, em retrospecto, exatamente isto: algo impossível.

Meus pais não tiveram formação acadêmica, apenas o “2º grau” de uma escola de interior. Só valorizaram o estudo porque não queriam que eu e minha irmã vivêssemos a incerteza do comércio. “É hoje e não é amanhã”, dizia sempre minha mãe. Tivemos acesso a boas escolas, a professores particulares de reforço, a curso de inglês ainda na infância, a livros, a computadores e acesso à internet desde pequenos. Foi muito mais do que a maioria tem. Esta última benesse, os computadores e a internet, possibilitaram que víssemos o mundo. E que vivêssemos em outros mundos. E é por isso que eu seria uma criança de Roblox.

O único ambiente físico de convivência que acredito que crianças comuns têm garantido hoje é a escola; praças, ruas, áreas comuns de condomínios são circunstanciais: apenas alguns podem estar nelas. E nelas eu não pude estar; enveredei-me pelo teclado e pelo mouse.
Qualquer lugar é inseguro, inclusive o virtual.

Mas acho que não era esse o sentido final que me fez escrever isso.
Um ano após me formar da faculdade, e dez anos depois de ter concluído o ensino médio, percebo: estou em vários círculos, mas não em um grande círculo como os que temos nos nossos anos formativos. São vários grupos de WhatsApp, de Instagram, amigos que compartilham TikToks, mas mal nos vemos, sequer no virtual.
Também não sou muito afeito por deslocamentos; tenho culpa nisso. Desvio-me de compromissos.
[Seguro nos meus mecanismos de defesa, abandono o ponto de falar de encontros presenciais.]

Sempre me vem a imagem da minha prima que, quando adolescente, abria o MSN Messenger quando estava de férias lá em casa e falava com vários amigos da escola. Eles se encontravam através do computador.

Tenho uma amiga que sempre está com a bolinha verde de “disponível” no Instagram, constantemente online, e tem uma vida social viva; não “apesar de”, mas talvez “devido a”.
Tenho pensado nisso: talvez a nostalgia de como as coisas eram e a vontade de reclamar do tempo que estamos tenha me impedido de entender que a continuação da sociabilidade que eu tinha quando jovem é estar hoje sempre disponível no Instagram.
Ou talvez não esperar pelo cenário perfeito, construí-lo em conjunto com os outros.

P.S.: Não me responsabilizo por nada que digo, quanto mais seguir à risca uma opinião de momento. Reservo-me o direito de ser hipócrita.