É difícil pensar que já fui campinense
Ou "Que bom que fui campinense"
A família da sogra da minha irmã é de Campina Grande.
Antes de ir morar em Campina pra estudar, a cidade mais longe que eu fui pro interior da Paraíba foi Guarabira. Ouvia falar de outras cidades, mas, não sendo do meu eixo de cidades (Mulungú, Mari, Sapé, João Pessoa), eu não me importava de como eram.
Minha irmã disse que era bom que eu passasse numa faculdade que não fosse em JP, cidade que morei por 4 anos por volta da época do ensino médio, pra que eu aprendesse a lidar com as coisas da vida. Eu odiei ouvi-la dizer isso.
Mas hoje eu sei que o tempo que eu passei em Campina foi formativo pra mim como pessoa. Até me arrependo de não ter passado mais tempo lá, algo que aconteceu logo após transferir meu curso.
Agora há pouco, liguei pra minha mãe que estava junto da sogra da minha irmã, com a qual ela tem vários embates principalmente quando estão juntas. Mas a sogra da minha irmã é dura na queda, tem convicções próprias e se segura nelas.
Quando fui pra Campina, passei alguns dias na casa dela de início. A casa tinha uma dinâmica diferente, como toda família tem. E, paralelamente, a cidade era semelhante mas diferente das cidades que eu tinha vivido. Hoje, por estar há anos fora desse cenário, vejo com otimismo a cidade. Ela representa pra mim o início da minha vida adulta, de resolver coisas (parcialmente) sozinho, de estar numa faculdade. De ter me assumido gay em 2018 pra minha mãe. Das primeiras paqueras. De ter andado de mão dada com um amigo homem e pensar que isso era muito bom. Do primeiro beijo. Da primeira relação sexual, e da primeira que eu realmente gostei.
Tirando duas cidades que vivi quando muito bebê, Campina Grande foi a cidade na qual vivi o menor intervalo. Mas que intervalo memorável!...
Fui embora de lá fugindo num devaneio de que essa outra cidade teria sido melhor pra mim se tivesse iniciado a faculdade lá. Mas eu não estava reiniciando a faculdade, eu não estava voltando no tempo pra 2017. Era 2020 e eu logo logo descobriria que perdi todos os meus amigos de Campina num movimento que não me trouxe muitas benesses.
Talvez não tivesse encontrado meu atual namorado na época que o conheci, talvez tivesse tido outras experiências sexuais e românticas, tivesse amadurecido mais rápido a noção de que cultivar o sentimento é importante pra essas coisas do coração e do sexo. Mas eu teria o encontrado em algum momento; inclusive, ele chegou a trabalhar por mais de 6 meses e quase engatar um namoro com outro moço em Campina em 2021.
Campina Grande tem a imagem dos meus amigos daquela época, e a minha imagem de jovem de 18 anos. Mas Campina não é mais nada disso: poucos dos meus amigos permanecem lá, e nossa amizade já mudou, já se distanciou há 06 anos.
Eu adoro falar em anos, em passagem de tempo... Mas agora digitando tudo isso eu vejo que o passar dos anos pra mim não tinha o peso que deveria ter: da irreversibilidade. O tempo vem, passa e continua. Não volta. Mas às vezes eu repito a ideia na minha cabeça que as coisas podem voltar a ser como em 2020 (ou 2017), que eu posso voltar a ser ainda mais jovem. Mas não.
O que vem por ai? O que me aguarda? Se eu fosse um homem heterossexual, procuraria uma parceira, teria um filho (acredito que meu parceiro já compartilhou que tem a mesma noção de que esse também seria seu destino); mas sou um homem gay, e penso que não está na época pra termos um filho. Não está na época de eu cuidar de um filho. E o filho seria o quê? Algo pra que a vida fizesse sentido?...